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A ecologia é o que une a todos os viventes humanos e não humanos – somos uma grande rede social viva e global. No entanto, enchentes, secas e pandemias, fenômenos agravados no Antropoceno, são desdobramentos de uma relação conturbada entre aqueles que compartilham o planeta, resultado de regimes políticos predominantemente predatórios e de uma ocupação conflitante do território.

 

Estamos em Belo Horizonte, cidade cujo princípio de ocupação territorial foi pensado a partir do traçado das vias e do parcelamento da terra, e onde córregos foram tamponados e violentados ao longo da história, sendo poucas as águas – nascentes, córregos e ribeirões – que restam a céu aberto e que são vividas como espaço social e ecológico.

 

Microcosmo dessa violência, a bacia hidrográfica do Cercadinho localizada na região oeste da cidade possui dois córregos principais – Cercadinho e Ponte Queimada –, que, mesmo que ainda permaneçam em seu leito natural em alguns trechos, são desconsiderados e maltratados. Entretanto, teríamos aí uma possibilidade de pensar e fazer o território habitado a partir de outro princípio? Podemos inverter a lógica de ocupação do território e partir da bacia hidrográfica, ou mesmo, partir do aquífero? Que transformações ocorreriam no território se mudássemos nosso ponto de partida?

 

Criamos a 1ª Mostra Córregos Vivos para ser esse laboratório de investigação, experimentação, debate e proposição, na região da Bacia do Cercadinho, produzindo propostas que friccionem o imaginário, articulando espaços e populações. 

 

Seis grupos de trabalho foram formados a partir de temáticas que relacionam as águas com o contexto vivo: histórias locais, nascentes e matas, jardins viventes, morar na bacia, economia dos afetos e pinturas de territórios. As propostas foram desenvolvidas durante o isolamento social e tornadas públicas nesta plataforma virtual.  A 1ª Mostra Córregos Vivos consta das proposições, debates, seminário, catálogo e materiais pedagógicos.

Histórias locais 

Censos, atlas e museus: estatísticas que definem um povo, sua localização geográfica e história de origem; contra tais narrativas oficiais, há de se discutir quais as gentes que habitam a bacia do Cercadinho, quais múltiplas geografias são produzidas diariamente no território, quais histórias são narradas e compartilhadas pela memória pelos-as moradores-as. Assim, pretende-se construir um espaço virtual das visões e práticas junto a água tendo a bacia do Cercadinho como contexto de trabalho, explorando os modos de viver desdobrados em narrativas e imagens. Entre lembranças pessoais, documentos oficiais e produções autorais, quais os rastros e vivências permanecem ou podem ser resgatadas?

 

Nascentes e matas 

Hoje são mais de mil nascentes cadastradas em Belo Horizonte, sendo que 90% apresentam água sem esgoto, conforme registro da secretaria municipal de Meio Ambiente da PBH. Na bacia hidrográfica do Cercadinho existem várias nascentes ainda preservadas que somam suas águas aos córregos Cercadinho e Ponte Queimada. Em 1990, uma área de proteção ambiental foi criada por decreto estadual para proteção da bacia, entendendo a importância desse manancial. Mas as nascentes e áreas de proteção ambiental sofrem constante pressão do mercado imobiliário. Como trabalhar com essas duas forças? O que é possível propor? O que seria pensar as águas – nascentes, córregos, rios – e as matas como elementos estruturantes de uma cidade, para além da lógica de áreas de proteção que excluem a vida cotidiana de humanos?  

 

Jardins viventes 

Múltiplas abordagens etnobotânicas são possíveis no meio urbano; comecemos com as mulheres. Elas cuidam de quintais e guardam a biodiversidade das plantas, conhecendo sua riqueza alimentar, medicinal, ornamental, diferenciando aquelas plantas que protegem e guardam as casas. Muitas das plantas contam histórias de amor e afeto. Na bacia do Cercadinho ecossistemas são produzidos pelas relações entre os diversos viventes, constituindo redes de interdependência a partir das afetações entre eles. A noção de jardim é ampliada para uma simbiose bio relacional e a bacia é entendida como uma outra cosmologia, e não apenas como uma área por onde se delineia um córrego.

 

Morar na bacia 

Morros, serras, picos, chapadas e fundos de vale definem o padrão de drenagem das águas da chuva ou nascentes, direcionam o escoamento das águas, e as levam para as partes mais baixas. As bacias possibilitam manter os biomas e atividades da vida cotidiana e econômica. Quais modos de morar existentes ou que podemos projetar para o futuro, possibilitam relações entre os viventes, combinando águas e matas, e não sua separação ou exclusão? 

Aqua clubes residenciais, Eco Vittas, Village Viveres, Greenports condominiais: todos lindos nomes que remetem à ecologia – água, vida, viver, vilas, eco, verde – grandes terraplanagens em solos de filito, torres, conjunto de casas de luxo, áreas de lazer, cercas e muros separando-os dos córregos e matas. Quais outros modos de vida e de espaços são possíveis?

 

Economia dos afetos 

Renda básica e cidadã, economia solidária, moeda social são termos e conceitos que apontam para uma economia baseada não em valores monetários abstratos mas sim em afetos próximos e locais compartilhados. Assim, pensando as águas da bacia do Cercadinho como vivente carregado de afetos produzidos, quais valores podem ser negociados? Quais moedas e imagens podem ser pensadas?

 

Pinturas de território 

Território da água: gentes, plantas, extensões de terra, paisagens, bichos, terreiros, quintais, vistas aéreas, mapas. Pinturas em conversas com pessoas, seus cotidianos, seus álbuns de família, google streetview e narrativas.

Esta é uma realização do Terra Comum, grupo de pesquisa em arte e arquitetura.

Coordenadora da mostra

Louise Ganz

Equipe curatorial

Louise Ganz

Ana Paula Baltazar

Frederico Canuto

Isabela Izidoro

 

Produção, identidade visual e design

Isabela Izidoro

 

Consultoria em tecnologia e design

Alexandre Campos

Produção de imagens

Louise Ganz

Gestão cultural

Regina Ganz

Assessoria de imprensa

Raquel Utsch